quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Apocalipse Club Noir


No dia dezoito de Fevereiro de dois mil e onze, pelas dez horas, realizou-se no Bairro Alto uma reunião presidida por ninguém e com a presença de mim e de Andrè (anteriormente conhecido como Ricky)  e com a seguinte ordem de trabalhos.

O apocalipse e uma acta.

Antes de iniciar este relato, devo anunciar que o anteriormente conhecido como Ricky passará a chamar-se Andrè, dado que esse também é o seu nome e dado que o Andrè é um belíssimo personagem para se ser. Também porque o supracitado estava revoltado com o seu epónimo nominal das actas e eu não desejo revoltas. Além do mais, conheço-o por demasiados nomes para lhe dar um dos nomes que conheço, por isso nomino-o a partir de Andrè Grandier, leal servo de Oscar François de Jarjayes, inicialmente Capitão da Guarda do Palácio e depois General da Guarda Francesa e amiga íntima da Rainha Maria Antonieta, que perdeu a cabeça pelo jogo. Depois vive escondendo o carinho que tem por ela (não a Maria Antonieta, mas o General) e ouvindo pacientemente as suas lágrimas quando fala do amante da Maria Antonieta, depois fica cego, vai para o exército, depois ela percebe que gosta dele e há uma cena maravilhosa de fazer chorar que envolve pirilampos (se bem que na banda desenhada não envolve pirilampos, mas imagens de deuses gregos) e depois ele morre. E Oscar de Jarjayes, apesar de ser General, é uma mulher. Com calças justas e umas faixas à 80s, apesar de serem todos do tempo da revolução. Mas enfim, agora é este o nome dele e vai ser complicado de mo fazerem mudar outra vez.

Primeiro pedi à minha mãe que me levasse até ao Cais do Sodré, para depois subir com Andrè. Tinha telefonado à Dori para saber se ela queria vir, dado que mais ninguém queria por razões apocalípticas, mas ela ficou de pensar bem no assunto e depois nunca mais disse nada. A minha irmã também ia à discoteca, mas ela vai a um sítio chamado Vacas Loucas que, só pelo nome, tem todo o aspecto de ser um antro de crianças hipersexuadas e mitras. Assim que Andrè chegou, começou a chover arduamente.

Ele trazia três cervejas Cerval, apesar de um cerval não ser uma cerveja mas sim um tipo de animal. Metemo-nos debaixo do arco da Rua da Rosa e ficámos lá a apanhar chuva de lado, a falar sobre Cubensis e sobre os Melech Mechaya. Depois comprámos uma litrosa na Mercearia Amarela ao lado do Eclipse e subimos para o nosso poiso habitual, a porta do Conservatório. Não tínhamos qualquer esperança de lá ficar muito tempo, por causa da chuva que caía sem parar sobre o meu castanho guarda-chuva (com uma tirinha azul no rebordo) mas a realidade é que o degrau estava mais ou menos seco e, por isso, sentámos. Entretanto começámos a cantar, Andrè fazia o seu showcase de fados que já se vem tornando hábito e eu cantava as Bóias São Nossos Amigos Porque Evitam Que Morras Afogado.

De repente, sinto a porta atrás de mim a deslocar-se. Por um único segundo pensei que o edifício se estivesse a deslocar, ou que eu estivesse a cair, mas a realidade é que era o Guarda-Nocturno do Conservatório a sair. Desejámos-lhe “boa noite” e eu perguntei se estava tudo bem com ele. Ele disse que “ainda bem que era Sexta”. Antes havíamos constatado como o Bairro Alto estava vazio por causa da chuva, até parecia um dia de semana, mas que a realidade é que Sexta-Feira também é um dia de semana. Depois ele voltou para trás para dar duas voltas à chave, pelo que o nosso plano imediato – que era ir a correr para dentro do Conservatório e ficar lá a mexer em tudo – foi arruinado. Pode ser que para a próxima ele se esqueça. Ou nos deixe entrar. Ou qualquer coisa!

Entretanto tivemos uma conversa bastante surreal sobre orelhas, o que me perturbou bastante. Perturba-me sempre bastante quando alguém que não seja o Sohei fala de orelhas. Ao levantar-me, vi o mundo da perspectiva do estar de pé, e rimo-nos muito dessa perspectiva. Depois eu decidi que íamos andar e por isso andámos. Comprámos mais uma litrosa e avançámos, desejosos de encontrar abrigo. Viemos a encontrá-lo já perto do Martim Moniz. Era um prédio todo iluminado, onde aparentemente param prostitutas variadas. Andrà garantiu-me que elas não nos viriam abordar, nem mais ninguém, por isso sentámos numas escadas bastante confortáveis, que davam para um túnel num primeiro andar. Infelizmente o túnel estava fechado.

Mal sabíamos da criatura que nos iria abordar de seguida.

Pois estávamos nós confortavelmente a beber a nossa litrosa e a preparar o nosso próximo sabor a Holanda (que está a terminar, mas quase a terminar. Encomendei mais outra vez, mas quem sabe se chegará?) quando nos aparece um homem velho de robe, com um guarda-chuva debaixo do braço. Note-se que ainda estava a chover torrencialmente. Ora pois o homem vem pedir cigarros. Lá procurámos cigarros para lhe dar. Mas ele em vez de ir embora, foi ficando. Ficando tanto que acabou por ficar. E disse muitas coisas. Disse coisas sobre orelhas. Disse coisas sobre a mulher dele e sobre a filha dele. Mostrou-nos a foto da mulher dele, dizendo que era branca como a cal (não, era preta como uma barra de chocolate preto). Eu disse-lhe que a mulher dele já estava preocupada para ele ir para casa. Ele não foi. Falou sobre a cerveja. Disse que não bebia. Disse que bebia vinho até cair. Disse que o vinho lhe tinha estragado a cabeça, coisa que se notava bastante bem. Mostrou-nos o guarda-chuva dele, que era da mulher. Falou de irmos para um hotel, coisa que nem nos desagradou, pois até já tínhamos pensado – se tivéssemos dinheiro – fazer check-in no hotel local e ir para Narnia num hotel. Disse que éramos boas pessoas. Disse que gostava de nós. Disse que se ganhasse o Euromilhões no dia seguinte nos dava o prémio. Não me desagradou, o homem. Depois lá se foi embora e estávamos nós aliviados quando… Voltou! A descer a rua! Ainda com o guarda-chuva debaixo do braço e desta vez acompanhado por um homem, jovem com certeza mas nem por isso com ar de boa pessoa. O homem veio pedir-nos lume e lá lhe arranjámos lume para lhe dar. O homem velho começou a dizer o quão boas pessoas éramos e como éramos amigos dele, apesar de termos de ter cuidado com AQUILO (a litrosa) e com o resto. E o homem novo perguntou com ar comprometido se tínhamos daquilo (a Holanda) para ele. Andrè disse-lhe que não, ele insistiu. Eu disse que não e ele mandou-nos para certo local, dizendo que éramos maus e injustos. O homem velho foi atrás dele para lhe bater, por nos ter ofendido. E nós fugimos dali.

Fomo-nos meter debaixo das Escadinhas de São Cristóvão, a caminho do local que não tínhamos encontrado da outra vez, o Club Noir no cento e vinte e três. Debaixo das Escadinhas de São Cristóvão cantámos e dançámos The Cure e vimos que estávamos em frente da porta de um alfarrabista, que tinha um livro chamado O Mistério do Comboio Mágico na montra. Passavam por nós pessoas de vez em quando, algumas até paravam ao nosso lado. Eu havia desistido da vida e estava sentada, apesar de estar tudo molhado. Afinal já tinha a cauda molhada, não interessava que estivesse mais ou menos. Fumámos tudo bem fumado, fui ver as vistas atrás de um saco do lixo e seguimos. Sei que falámos de mais coisas, mas não sei o quê. Apenas sei que as Escadinhas de São Cristóvão são um lugar muito agradável.

                Finalmente chegamos ao Club Noir.

                Entramos, pagamos cinco euros, pedimos uma cerveja, encontramos sofás. Tocam a Boys Don’t Cry. Andrè adormece. Tocam Prodigy. Tocam O Fogo da Arcada. Convenço Andrè a acordar. Digo-lhe que são quatro da manhã, ele acorda. E pensando bem nesta noite fiz imensas coisas sozinha! Fui pedir para passarem The Cure e fui pedir duas águas tónicas! Estou a tornar-me numa criatura demasiado independente, isto é anti-natura!

                Chegados aos barcos afinal ainda falta imenso tempo para o barco. Acendemos um cigarro para fazer horas. Aparecem mitras chungosos, que nos pedem um cigarro. Tenho um maço, mas digo que não tenho. Pedem a ponta, dou-lhes a ponta, fico sem cigarro. Assaltaram-me e roubaram-me uma ponta. Esta gente é mesmo má, odeio-os.

                Depois fui para casa e no dia seguinte acordei com dores na espinal medula. No entanto tinha de ir entreter miúdos da quarta classe ao nono ano, por isso acordei à mesma, e fui entretê-los. Os miúdos que eu conhecia já estão crescidos, já mudaram a voz.

                E, nada mais havendo a tratar, foi lavrada a presente acta que, depois de lida e aprovada, vai ser assinada pelo presidente e por mim, a Amiga Imaginária, na qualidade de secretária, que a redigi.

3 comentários:

  1. tiveste sorte com esses xungas, a mim pediram me tabaco, dinheiro e o telemóvel e ainda um me deu a dica que tava com desejos de matar alguém naquela noite..

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  2. Oh wow a sério? Mas ficou tudo bem?

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  3. ya, depois ainda deram passou bens e seguiram na vossa direcção, passado um bocado apareceu o ricky

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